Entre os métodos de avaliação do estado nutricional utilizados para o monitoramento de crianças, é importante destacar as medidas antropométricas, pela facilidade de aplicação, baixo custo e caráter pouco invasivo, reforçando a sua universalização com importância reconhecida na prevenção da mortalidade infantil, prognóstico e promoção da saúde da criança.
Recentemente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou uma nova proposta para o monitoramento do crescimento e desenvolvimento infantil para o período de 0 a 5 anos, embasada num estudo multicêntrico com cerca de 8 mil crianças realizado no Brasil, Gana, Índia, Noruega, Omã e Estados Unidos, representando as seis principais regiões geográficas do mundo.
Tal estudo representa um momento de vanguarda dentre as ações direcionadas à saúde infantil, pois reflete uma proposta da OMS, que em 1997, decide que crianças de todo o mundo deveriam ter um padrão ideal de crescimento ao invés de descrições que variassem com lugar e época, considerando-se que desde o final da década de 70, o mundo baseava-se numa curva preconizada pelo National Center for Health and Statistic (NCHS), não correspondente ao padrão internacional e com algumas limitações metodológicas.
Para participar deste estudo, foram selecionadas crianças de acordo com rigorosos critérios de inclusão, cuja elegibilidade foi assegurada através de um “ambiente adequado para o crescimento”, tendo acesso a serviços de saúde, vacinação, aleitamento materno garantido até o sexto mês predominantemente, nascimento a termo, sendo a gestação de feto único, boas condições de nutrição e saúde, e filhos de mães não- fumantes. Dentre os inúmeros critérios adotados para seleção dos locais de coleta de dados, destacaram-se: condições socioeconômicas favoráveis, capazes de não comprometer o crescimento, baixas taxas de mortalidade infantil e prevalências de stunding, wasting e baixo peso inferiores a 5%; baixa altitude (menor que 1500 metros); pelo menos 20% das mães dispostas a seguir as orientações referentes à alimentação infantil recomendada; existência de um sistema de suporte em amamentação.
O resultado prático do estudo foi a elaboração de curvas de crescimento em percentis e Z-score, que direcionam metas para avaliação antropométrica infantil, através dos índices peso/idade, comprimento/idade, estatura/idade, peso/estatura e IMC/idade. Nesta mesma proposta também são contempladas novas recomendações sobre o desenvolvimento motor, que diferem das utilizadas atualmente. Deste modo, os comitês nacionais e internacionais de saúde vêm referendando a nova recomendação, sendo preconizada sua adoção por profissionais envolvidos com o monitoramento da saúde infantil.
A análise mostrou que, independente do local de nascimento, crianças criadas em “condições saudáveis” até a idade de cinco anos apresentam padrões de desenvolvimento similares, não variando significativamente com a região geográfica de origem. Neste contexto, a OMS afirma que diferenças no crescimento nesta faixa etária são muito mais influenciadas por fatores como nutrição adequada, ambiente e acompanhamento das condições de saúde, do que pelos fatores genéticos ou étnicos.
Vale ressaltar que a referida proposta apresentará um reflexo importante no diagnóstico nutricional infantil, pois parece ser mais sensível na detecção dos extremos do estado nutricional, uma vez que o padrão normal propõe ponto de coorte mais alargado, permitindo a detecção precoce, tanto de casos de desnutrição severa como de obesidade, e conseqüentemente, medidas intervensionais mais oportunas.
No Brasil, que representou um papel de destaque neste estudo multicêntrico, a expectativa para aplicação das novas curvas nos serviços de saúde é emergente, devendo ocorrer após o treinamento das equipes e reformulação do formato da Caderneta da Criança.
Por fim, este estudo é extremamente pertinente, corroborando com a necessidade da elaboração de uma série de padrões alimentares e de saúde, capazes de subsidiar os profissionais, pais e responsáveis pelas políticas públicas de saúde as referências exatas para notar quando as condições ideais de crescimento não estão sendo alcançadas.
Sugestões de leitura:
The WHO Child Growth Standards http://www.who.int/childgrowth/standards/en/
WHO Multicentre Growth Reference Study Group. WHO child growth standards based on length/height, weight and age. Acta Pediatríca 2006; Suppl 450:76-85.
Araújo CL, Albernaz E, Tomasi E, Victora CG. Implementation of the WHO Multicentre Growth Reference Study in Brazil. Food and Nutrition Bulletin 2004; vol. 25, n 1(suppl 1):53-59.
Onis M, Garza C, Victora CG, Onyango AW, Frongillo EA, Martines J. The WHO Multicentre Growth Reference Study: planning, study design, and methodology. Food and Nutrition Bulletin 2004; vol. 25, n 1(suppl 1):15-26.